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70 anos de passagem da FEB por Lisboa de retorno ao Brasil
14 de  setembro de 2015 | Autor : 10 | Fonte : 10
Por Dante Ribeiro da Fonseca 

No dia 03 do corrente um fato histórico passou despercebido para a maioria de nós. Trata-se do retorno de um contingente da Força Expedicionária Brasileira - FEB que lutou na Itália durante a II Guerra Mundial (1939-1945). De volta da vitoriosa campanha promovida contra o nazi-facismo, o contingente militar parou em Lisboa onde foi recepcionado com festejos e honrarias ofertados pelo governo português e grande adesão popular. Conforme relata o jornal “Diário de Lisboa”, publicado naquele dia, o vaso de guerra brasileiro Duque de Caxias, que chegou à véspera a Cascais, navegou o rio Tejo acima e atracou de madrugada em Lisboa. Conduzia 162 oficiais e 1.636 praças do Batalhão de Infantaria do Depósito de Pessoal da FEB, alguns deles mutilados pela guerra.

Naquele mesmo três de setembro desfilou o batalhão em conjunto com o Exército Português pelas ruas da vaidosa alfacinha. Iniciando a parada na praça Marquês de Pombal, onde o presidente da República Portuguesa general Antonio Oscar de Fragoso
Carmona condecorou a bandeira da FEB com a mais alta condecoração militar de Portugal: a Medalha de Ouro de Valor Militar.  Conforme consta no decreto-lei que concedeu a medalha, o ato estava: “Querendo significar à nação brasileira e ao seu exército o público testemunho de alto aprêço do Governo e do povo português pelos actos de excepcional bravura praticados pelas fôrças do Corpo Expedicionário Brasileiro no teatro de guerra de Itália, em que as armas do Brasil se cobriram de glória; ...”

Conforme explica o prof. dr. Adriano Moreira, durante a Segunda Guerra Mundial Portugal adotou a chamada “Neutralidade Colaborante”. O Exército Português não entrou em combate, embora seus territórios no Timor Leste tenham sido invadidos covardemente pelas tropas japonesas, aliadas ao Eixo (Itália, Japão e Alemanha). Permitiu, contudo, o governo português que as ilhas dos Açores fizessem parte da estratégia Aliada que o Brasil compartilhava com os Estados Unidos, Inglaterra e França, entre outros países.  
Presidente da República Portuguesa general Antonio Oscar de Fragoso Carmona condecorando a bandeira da FEB.



A reação efusiva da população lisboeta à chegada do contingente brasileiro, segundo especula o mesmo professor, talvez tenha sido provocada por uma identificação, ou seja, entendida como: “[...] um feito de irmãos que enobreceu toda a família.” Daí a recepção emocionada com a qual foram recebidos nossos expedicionários em Lisboa. Creio que o sentimento geral dos portugueses ao verem aqueles soldados brasileiros desfilando seja muito bem expresso em um fado (música nacional portuguesa) gravado à época pela cantora Natália dos Anjos. O título é significativo: “Nossos Irmãos” e diz assim: 

Um regimento passou./ De soldados brasileiros./ E um menino perguntou./ Minha mãe, são estrangeiros?./ A mãe sorriu de maneira./ Que ao filho pareceu de troça./ Minha mãe é que a bandeira./ Que ali vai não é a nossa./ Nas cores não se assemelha./ Tem um céu, muitas estrelas./ A nossa é verde e vermelha./ Mas são lindas qualquer delas./ Aquela nobre bandeira./ Que volta altiva da guerra./ É da nação brasileira./ Que é irmã da nossa terra./ São nossos irmãos bem vindos./ São nossas as suas galas./ E até falam português./ Tal qual eu falo e tu falas./ Marcham ali perfilados./ Como se fôssemos nós./ Os avós desses soldados./ Foram os nossos avós./ Regressam de batalhar./ Pelo direito, pela verdade./ E acabam de conquistar./ Nossa própria liberdade (bis).
 
Apenas temos a reparar à beleza desse fado o fato de que a liberdade ainda tardaria, mais para Portugal que para o Brasil, pois ambos viviam ditaduras. No Brasil o fim do Estado Novo foi quase simultâneo ao final da II Guerra Mundial, no ano seguinte já tínhamos um presidente eleito. Em Portugal o Regime Salazarista terminaria quase trinta anos depois, com a Revolução dos Cravos. Porém  entende-se a palavra liberdade contida na letra do fado como tendo o sentido de libertar o mundo do projeto totalitário nazista.

O mais importante aqui é que a música reverenciava aqueles soldados brasileiros que cumpriram seu dever, como se portugueses fossem, expressando o sentimento coletivo do povo daquele país. Nas palavras da mãe portuguesa ao seu filho os brasileiros: “Marcham ali perfilados/ Como se fôssemos nós”.

De alguma maneira é como se nós, antigos portugueses coloniais, povo cuja construção mestiça africana, indígena e europeia fora arquitetada secularmente por Portugal, os representássemos. Segundo essa identificação aquele contingente de brasileiros, caboclos em sua maioria, garbosamente representaram as duas pátrias na Segunda Guerra. Pergunta a canção do expedicionário brasileiro: de onde vinham aqueles soldados? E a mesma canção responde com incomparável e emocionada beleza: “Das selvas, dos cafezais, [...]/ Venho das praias sedosas,/ Das montanhas alterosas,/ Dos pampas, do seringal,/ Das margens crespas dos rios,/ Dos verdes mares bravios./ Da minha terra natal.”

Uma vasta programação comemorativa ao evento foi organizada neste ano de 2015 em Portugal por autoridades brasileiras e portuguesas, dentre elas o lançamento de uma obra. Trata-se do livro organizado pelo coronel Cláudio Tavares Casali intitulado “Força Expedicionária Brasileira em Lisboa: a célebre passagem das tropas brasileiras em Portugal” (1ª ed. Lisboa: Aditância do Exército e da Aeronáutica da Embaixada do Brasil em Lisboa, 2015). Para orgulho da Academia de Letras de Rondônia (ACLER) participa dessa obra coletiva seu acadêmico correspondente em Lisboa Rui Santos Vargas, ao qual parabenizamos. Contribui o referido acadêmico com um artigo sobre as condecorações que foram atribuídas em Lisboa ao Batalhão de Infantaria do Depósito de Pessoal da FEB e a vários oficiais. 
Dante Ribeiro da Fonseca
 

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