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Passado e presente: Um povo indolente?
4 de  março de 2015 | Autor : 10 | Fonte : 10

Por Dante Ribeiro da Fonseca

Em 1867 D. Pedro II convidou aos engenheiros alemães Joseph e Franz Keller para investigar como facilitar a navegação entre o Brasil e a Bolívia nas cachoeiras do rio Madeira. Foi a primeira comissão que realizou esse estudo. Resultou daí a obra: Os rios Amazonas e Madeira: esboços e descrições do caderno de um explorador, de Franz (filho de Joseph), publicada em inglês na Filadélfia em 1875.
Conta Keller que ele e o pai seguiram de navio a vapor para Manaus. Dali não havia linha de vapores para o Madeira, sendo esse trajeto feito por ubás, canoas feitas de um só tronco de árvore. As dificuldades em adquiri-las iniciaram a exasperar a Franz. Como era comum aos estrangeiros que nos visitavam no século XIX, Keller passou então a emitir opiniões sobre o caráter do amazônida, para satisfazer suas frustrações.
Surpreendia-o ver uma região naturalmente tão rica possuir povo tão pobre. Ao ter dificuldades em encontrar mantimentos para a expedição, culpa aos caboclos e tapuios, que nada plantavam. Reconhece que pescam, mas até o pirarucu considera alimento abominável. Para piorar, não encontra naquela Manaus indígena remadores, nem oferecendo “altos salários”. A razão é a preguiça dos índios e mestiços, comprova-o um eterno balançar deles nas redes em “estado de torpor”. A situação piora quando, ao oferecer um “bom salário” para um mestiço, gente que Keller considerava sumamente atrevida, além de indolente, o topógrafo da expedição recebeu como resposta desafiadora: Volta amanhã, depois que eu vender meu peixe na cidade, e eu lhe darei o dobro se você me deixar em paz no futuro. O alemão, quando soube, ficou furioso. Não compreendeu nosso viajante a racionalidade dessa gente tão desprezada por ele. Porque iriam arrostar canseiras e perigos se estavam vivendo como sempre? Em troca de um “alto salário”? O que significaria isso para essas pessoas? Muito pouco, certamente.
Finalmente, os viajantes conseguem canoas e remadores ... bolivianos, mojos e canichanas, cedidos por um comerciante de Santa Cruz de La Sierra e deixam os nossos mestiços e indígenas de Manaus em paz sem mesmo que aquele atrevido mameluco tivesse que pagá-lo para isso.
Essa visão negativa sobre o nosso povo predomina ainda hoje. Ainda hoje nossa pobreza é explicada pela preguiça. Contudo, encontramos nesse raciocínio insuficiências, assim como naquele de Keller. A primeira está em explicar como um país rico, não por causa da natureza, mas do trabalho, abriga um povo tão pobre. A segunda está em explicarmos como um povo tão indolente construiu uma economia que está entre as dez primeiras do Mundo.

Publicado no jornal O Alto Madeira de 15/022015

Dante Ribeiro da Fonseca
 

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